Quando o diagnóstico de HIV/Aids vira um baque: medo, preconceito e o caminho da reconstrução
- Geovane Corrêa - Psicólogo
- 15 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
Receber um diagnóstico de HIV pode ser um dos maiores baques emocionais da vida de um homem gay. Mesmo com todos os avanços da medicina, com tratamentos altamente eficazes e com a vida plenamente possível e saudável, muitas pessoas ainda sentem que o chão se abre. Não é apenas a notícia em si, é tudo o que ela desperta.
O diagnóstico costuma ativar medos antigos, culpas aprendidas, vergonha herdada e imagens sociais que ainda hoje ferem profundamente. Muitas dessas feridas vêm de décadas de estigma: a ideia de que o HIV é um marcador moral, um castigo, uma prova de falha. Mesmo que racionalmente saibamos que isso não faz sentido, a psique emocional opera em outro registro, mais simbólico, mais sensível.
O impacto emocional: colapso, silêncio e solidão
Para muitos homens gays, o primeiro movimento é um colapso interno. Um silêncio pesado.Uma sensação de ruptura com quem se era antes.
Pode aparecer medo do futuro, medo de contar para alguém, medo de ser visto como “menos digno”, medo de nunca mais ser amado ou desejado. Esses medos, embora dolorosos, não surgem do nada, eles são eco de uma cultura que ainda carrega preconceitos e leituras moralizantes sobre corpos LGBT.
E é muito comum que esse abalo traga à tona outras experiências antigas: rejeições, histórias de discriminação, relacionamentos traumáticos, a sensação de ter que “provar valor” o tempo todo. O diagnóstico, nesse sentido, não cria feridas novas, ele toca feridas que já existiam.
Vergonha, segredo e autocobrança
A vergonha aparece quando aquilo que vivemos se choca com a representação social do “corpo ideal”, “homem ideal”, “gay ideal”. Muitos homens sentem que precisam esconder, disfarçar, manter tudo em segredo para evitar preconceitos, inclusive dentro da própria comunidade.
É nessa hora que a autocobrança cresce: “Como deixei isso acontecer?” “Será que isso me define?” “Será que alguém ainda vai me querer?”
A psicologia junguiana entende esse momento como uma crise simbólica: um acontecimento que desorganiza o ego e revela conteúdos que estavam escondidos na sombra: medos, vulnerabilidades, inseguranças, fantasias de abandono.
Ressignificar: compreender o que esse momento desperta
Depois do baque inicial, muitas pessoas entram num processo profundo de ressignificação. Não é rápido e não é linear. Mas pode ser transformador.
Esse processo envolve:
• compreender que o diagnóstico não é identidade
• diferenciar o que é tratamento médico do que é estigma social
• reconhecer a própria vulnerabilidade sem se sentir diminuído
• abrir espaço para reconstruir autoestima, desejo e possibilidades
Aqui, a psicoterapia oferece um espaço seguro para reorganizar tudo isso. Não para apagar o impacto, mas para dar sentido ao que aconteceu, acolher esse colapso inicial e construir uma narrativa mais justa consigo mesmo.
Se reerguer: reconstruir a vida emocional e relacional
Com acompanhamento, informação e acolhimento, muitos homens descobrem que esse momento, por mais difícil que seja, pode abrir portas para:
• relações mais honestas
• fronteiras mais saudáveis
• um autocuidado mais profundo
• uma autoestima mais sólida
• uma sexualidade vivida com presença e consciência
• uma visão menos punitiva e mais amorosa de si
Se reerguer não é “superar tudo” ou fingir que nada aconteceu. É integrar a experiência de modo que ela não seja mais ferida aberta, mas parte da história , uma parte que pode ganhar significado e amadurecimento.
O diagnóstico pode ter sido um baque, sim. Mas você não precisa atravessar isso sozinho.
Um espaço para acolher seu processo
Se você está passando por esse momento ou se passou por ele recentemente e sente que precisa de um espaço seguro para falar sobre isso, reconstruir sua relação consigo mesmo e ressignificar tudo o que esse diagnóstico despertou, a terapia pode te ajudar.
Se quiser agendar uma sessão ou entender melhor o trabalho clínico, estou aqui.Vamos caminhar isso juntos, no seu ritmo.



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